DIÁRIO DO FURACÃO IRMA

Querido diário:

Ficar ou fugir?

Esta é a primeira pergunta que a gente se faz quando chegam as informações atualizadas que não tem jeito, o furacão tá mirado prá você e só a mão de Deus pode fazè-lo desviar ou enfraquecer.

Se eu fosse sozinha, minha decisão não seria outra do que fugir.  Fecho o apartamento, coloco meu carro em algum lugar meio seguro e vou embora. Passei o furacão Wilma quando o olho passou por aqui ,  só categoria dois e jamais vou esquecer a hora que fiquei segurando uma porta porque o vidro da janela quebrou e os aviões de coleção do meu filho voavam dentro do quarto e lá fora tudo vibrava como dentro de um liquidificador.

 Mas tenho filhos, nora, genro , uma neta e um neto canino e tinhamos que entrar em acordo.

Como ir embora e deixar o que tenho de mais importante na vida?

Sem chance.

Aí entra a importância da Defesa Civil. Eles  é que ajudam a fazer a decisão baseado nas informações.

Minha filha mora ao sul de Miami, muito perto do mar e mais próximo de lugar que se supunha e que se confirmou, o furacão ia bater a primeira vez em terra. Esta era uma área que deveria ser evacuada. E ela não queria. Felizmente, acompanhando as notícias, mudou de idéia, porque  também é mãe e tem que tomar decisão por ela e por quem depende dela e a decisão não é de todo a mais fácil, até porque o cachorro é um membro da família, mas nem sempre aceito em qualquer lugar.

Minha área não estava listada na região para evacuar.

Passarm a pedir para a região B e logo para região C evacuar. A minha era D.

E a tensão? Já tá na C. E se mandarem evacuar a D? 

Quando chega na D o tempo para evacuação também diminui. A preocupacação é com as estradas. Ficar preso num engarrafamento no meio de um furacão não é a decisão mais acertada. Além disto, desta vez, a previsão era ele atravessar a Flórida toda. Tenho amigas que foram para o lado Oeste, quando ele estava previso Leste. Mudou a rota pra Oeste e acabaram voltando prá casa. Não queria isto. Acho mais arriscado ainda. 

Esta foi a debandada quando foi ordenada a evacuação.

Testa o limite, mas o limite mesmo. Na quinta-feira, ja não estava mais raciocinando. Mas no meio destes sentimentos desencontrados você tem que continuar agindo e se preparando.

O que acontece se a gente não evacuar?

Fica-se pelo prõprio risco ou seja, as equipes de resgate só vão vir resgatá-lo se for possível. 

Toca comprar comida não perecível ( pensem um pouco e vejam como restringe as opções)  e água para enfrentar os primeiros sete dias pelo menos (no Wilma ficamos 10 sem luz, o que significa não ter fogão, não ter microondas, não ter refrigerador e muito menos ar condicionado quando a temperatura te torna meio irracional, porque é uma mix de calor e humidade que me deixam num grau de irritação extremo, fazendo com que tenha que me concentrar prá não transferir para os outros a minha fraqueza e ainda torcer muito para que o abastecimento de água continue, porque muito, mas muito pior do que ficar sem luz é ficar sem água, que é vital para o ser humano.

É preciso abastecer o carro, porque com a falta de luz, vem a falta de condições das bombas funcionarem não se sabe por quanto tempo.

É preciso fechar as janelas com madeira. No meu caso não, porque meu filho, felizmente (ainda nem pude agradecer porque ele esta trabalhando na Europa), me fez instalar janelas a prova de furacão, que eu continuo com dúvida se realmente seguram um furacão categoria 5 ou não. Outra coisa que me segurava ( você procura tudo que é possivel ) é que meu prédio passou o furacão Andrews.

A preocupação é o vento e o alagamento.

 

Lembrar de encher a banheira para ter água para as privadas, caso falte. Serão cinco pessoas num apartamento em que as necessidades básicas precisam ser atendidas por um tempo que não se sabe, num ambiente no mínimo civilizado.

A banheira cheia dagua. O desafio é que a água permaneça. Usamos filme para colocar no tampão e funcionou.

Eu até sofistiquei. Já tinha uma caixa com aquilo que é importante prá enfrentr os primeiros momentos ( lanternas, fosforo, velas não muito recomendáveis, lanternas, talheres descartáveis, copos descartáveis fogãozinho de camping, até um geradorzinho e ventilador que funciona a pilha) Mas junto a isto é preciso ter pilhas, 

Depois é esperar… e esperar…. com os olhos grudados na televisão, com jornalistas beirando o sensacionalismo  ridículo, mas com muitas informações importantes que se precisa saber e tentar adequando os planos. Meu filho, de longe, ia dando as coordenadas, com a cabeça mais no lugar do que nós que estavamos aqui ou não, porque a distância também é difícil, por não saber exatamente o que estava acontecendo.

E qual é a conclusão?

Que todo mundo tem a teoria, mas nao a certeza.

Aplicativos vão mostrando o caminho do furacão desde a sua formação. Acompanhei deste o início e isto ajuda a estressar. Quando chega perto e mais ou menos assim, so que isto faz a diferenca entre você estar no olho ou não.
No dia 7 de setembro a previsão era esta. Cada dia ele foi indo mais prá oeste e acabou passando do outro lado. Esta é a única modificação nas previsões. E tipo aquele coisa mais dois pontos, menos dois das estatisticas e podem ser decisivos.

Que contra a força da natureza a gente pode até tentar se proteger, mas que no fundo, no fundo, não sabemos qual será o resultado. E isto é apavorante.

Mas nos faz pensar… ah faz. E pensar em pequenas coisas que fazem grande diferença.

Faz valorizar um prato quente, enquanto você tem. Faz curtir um  banho quente, enquando você tem, o conforto do ar condicionado, o acolhimento da sua casa, seu porto seguro, faz pensar como você rezou pouco ultimamente, como ose preocupou pouco com os outros e tantos outros sentimentos.

Por outro lado te faz imaginar o que pode acontecer. A força de um furacão é catastrófica. Imagino que seja mais ou menos como colocar tudo dentro de uma centrífuga e aquilo ficar rodando por umas cinco horas. O que sai é partículas.

Eu sonhava com o mar invadindo tudo. Havia ameaça de até 10 pés de enchente. E aí vem a discussão  Que altura é 10 pés?  Sou brasileira e as medidas são decimais. Na hora H parece que tudo some… Precisa recalcular, para decimal prá ficar claro o que  é.  Meu Deus!!!! Mais de três metros de altura!!!!  Mas a partir do que?  Diziam do ground(solo). Como assim?   Sempre se calcula pelo nivel do mar. Nao é possivel!  Toca pesquisar,   E a partir do ponto mais baixo da região. E assim as dúvidas vão pipocando. Eu ficava calculando o nivel de elevação da minha região, e a altura do meu apartamento que esta no segundo andar ( primeiro no Brasil).  A Flórida é cheia de lagos e canais, uns ligados aos outros e por fim ao mar. Rapidinho você descobre que as autoridades até esvaziaram o Lago a quilometros daqui, tentando colontrolar os canais.. São tantos os detalhes prá ajudar que a tragéfia iminente não seja maior.

Você vira especialista em meteorologia. Fica torcendo prá aumentar a pressão atmosférica o máximo possível porque não e possivel gelar o mar, outro combustivel para furacoes, então a esperança é a pressão atmosférica.

A vantagem, se existe, é que o furacão ele é mais ou menos previsível. Reparem que é tudo no mais ou menos. Mas  é que os tornados são imprevisíveis e devastadores.

Tudo pronto, a família da minha filha instalada começou a angustiante agonia. Ficamos literalmente 48 horas dentro de casa, grudados na televisão e na Internet. Em nenhum momento ficamos sem energia. Isto ajuda muito, muito . Poderia escrever muitos, muitos. Mas acho que entenderam. Tudo no escuro e com calor é pior.

O monstro entrou em terra no inicio da manhã.

E nos grudados no aplicativo que mostrava a caminhada, rezando pelos pobre que estavam no olho do furacão. Quem passa entende exatamente o que significa esta expressão usada de forma casual, prá expressar momentos de pressão.

Além disto, um furacão tem nuances. E é preciso entendê-las. Prá nós foi reservado o que eles chamam do lado sujo. É o lado que tem mais chuva, mais vento e muitos tornados.

A toda hora entrava nos nossos telefones mensagens de tornados e o tempo de duração.

Prá agravar ainda mais a ansiedade, o alarme de incêndio do nosso prédio disparou e o  barulho é ensurdecedor prá que a gente saia do apartamento. Mas como sair se lá fora tem um furacão? Não sei como, mas alguém desligou, nos aliviando de mais este suplício.

Passamos o dia de uma janela prá outra.

Como esta porta abre pra dentro ( a de segurança abre prá fora) colocamos peso prá ficar mais resistente. E quando a tempestade engrossou dava prá olhar por aqui.

Até que a coisa começou a engrossar. E podem rir, mas eu fechei as persianas e fiz a técnica do avestruz. O que os olhos não veem o coração não sente.  Além disto ficar perto de janelas não é recomendado. Desta vez não precisamos ficar dentro do armário, ou confinados no meio da casa, aonde tem mais segurança.  Mas até a água da privada sacudia.

Logo, logo começamos a ver as consequências. Caiu um pedaço enorme da ãrvore exatamente na minha vaga do carro. Como eu havia decidido coloca-lo no estacionamento do Shopping Aventura, escapei do prejuízo.

E uma a uma, foram arrancadas algumas ãrvores no raio que conseguiamos ver.

E a luz piscava e voltava, piscava e voltava. A cada piscada o coração ia no chão e voltava. Mas a cada volta, uma vibração. Até rádio que funciona com manivela tinhamos, mas com luz podiamos acompanhando as notícias pela televisão.

Por volta das quatro horas da tarde de ontem, domingo, o furacão bateu novamente em terra. Agora mais ou menos na latitude de onde moramos. Foi quando sentimos as consequências mais fortes. Aí o papo já fica meio escasso e a preocupação aumenta. Mas a partir dali, a tendência era durar mais umas duas horas e teriamos passado o pior.

 

E assim foi.

No início da noite já estavamos respirando aliviados. O monstro passou. Infelizmente com grande devastação para muitos e com devastação prevista pela frente prá outros.

Sobrevivemos!!!

Totalmente estressada emocionalmente.

A forma como minha neta expressou tudo que aconteceu.
A linda árvore que fazia um tunel na minha rua infelizmente foi para o chão.

Obrigada a Deus e a Defesa Civil da Flõrida por estarmos bem e aos amigos que nos acompanharam online pelo Facebook. É muito bom se  sentir perto dos outros quando algo tão grande nos ameaça.

Um abraço

Silvana

 

 

 

 

 

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4 thoughts on “DIÁRIO DO FURACÃO IRMA

  1. Nossa como vc escreveu bem…escreveu com o coração…Senti o que vcs sentiram…me achei até boba de ficar enviando minhas análises da rota dele…afinal eu tão longe e vcs ali ao lado…
    Feliz cada vez que via nas minhas consultas ele cada vez mais pra oeste…e assoprando com rezas para ele não pegar o rumo norte…
    Silvana..até o hino da América eu escutei aqui…
    Bom ..passou e vc transmitiu nesse texto toda uma angústia mixada com inteligencia e cuidados nos minimos detalhes…
    Que alívio que estão todos bem….gosto muito de ti…

  2. que loucura!!!
    ainda bem que não foi tão devastador na tua área! nós aqui só na oração por vocês, e, vcs com
    milhões de estratégias para segurança!!!
    que bom que já passou!!
    um abração bem forte,minha amiga!!!bjos

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