DONA EVA SOPHER, UMA GIGANTE

É com tristeza que recebo a notícia do falecimento da Dona Eva Sopher.

Ela não é da minha família, mas fez muito por mim, por tabelinha.

Adoro arte, principalmente teatro e ela lutou com unhas e dentes prá devolver ao Rio Grande do Sul seu mais tradicional teatro recuperado e sustentável.

Nunca tive o prazer de ser apresentada a ela, mas sempre a via circulando pelo teatro nos dias de espetáculo.

Acho que esta foto e uma das que melhor representa D. Eva. Uma simbiose entre ela e as poltronas do teatro. Poltronas estas que ela fez questão que fossem arrancadas todas as camadas de tecido até se descobrir a original para devolvê-las ao teatro neste padrão. Todos os detalhes foram cuidados ao extremo.

Ela teve uma vida longa, 94 anos. Foi abençoada com uma vida ativa e saudável até o final.

Mas o Rio Grande do Sul fica meio sem pai e nem mãe em termos de proteção do Teatro São Pedro.

Como estou fora há  muitos anos, espero que ela tenha preparado a sua sucessão.

O mais incrível que D. Eva nem gaúcha era. Nasceu em Frankfurt, na Alemanha em 18 de março de 1923.

De origem judaíca, emigrou da Alemanha para o Brasil em 1936, aos treze anos de idade em razão da perseguição nazista

Primeiro morou no Rio, depois fixou-se em São Paulo, onde estudou arte, desenho e escultura no Instituto Mackenzie.

Em 1950 adquiriu a nacionalidade brasileira e em 1960 transferiu-se para Porto Alegre, já estando casada com Wolfgand Klaus Sopher.

Em Porto Alegre, reativou o Pro Arte organizando concertos , espetáculos de teatro e apresentações de grandes orquestras ao longo de mais de duas décadas.

Em 1975 ela assumiu a direção do Theatro São Pedro para gerenciar as obras de sua restauração, continuando a dirigi-lo depois de sua reabertura em 1984, como Presidente da Fundação Teatro São Pedro.

O teatro tem uma acústica maravilhosa. Numa despedida de turnê da Maria Dela Costa, puxei um Prenda Minha que foi seguido pela platéia. Lindo e emoricionante, apesar de ter sido uma loucura.
Era um acharme assistir qualquer apresentação neste teatro. No tempo que tinha agência de viagem em Sao Leopoldo, muitas vezes fiz grupos para assistirem a algum espetáculo em Porto Alegre, Inesquecível.
PORTO ALEGRE, RS, BRASIL, 05.03.13: Ministra da Cultura, Marta Suplicy, realiza palestra sobre Vale-Cultura no Theatro São Pedro. Foto: Pedro Revillion/Palácio Piratini
Entre muitas homenagens, em 2015 recebeu a “Medalha de Goethe”  do Instituto Goethe na Alemanha pelo seu trabalho com
o presidente do Theatro Sao Pedro de Porto Alegre onde, segundo a justificativa do prêmio, criou “um local de encontro internacional para artistas de todos os estilos”.
Para quem não conhece, o Theatro São Pedro é o teatro mais antigo de Porto Alegre.
Durante mais de cem anos foi palco dos mais importantes espetáculos assistidos em Porto Alegre. Por lá passaram os pianistas Arthur rubinstein, Magda Tagliaferro, o maestro Heitor Villa-Lobos, as cantoras Bidu Sayão, o dramaturgo Roman Riesch, a orquestra de Versalhes, os atores Walmor Chagas, Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Paulo Gracindo e tantos outros
De uma gaúcha de nascimento Glória Menezes para uma gaúcha de coração.
Bibi Ferreira, que se apresentou várias vezes no teatro e admirava muito o espaço.
Em 1973 o teatro foi interditado por absoluta falta de condições técnicas.
Em 1975 D. Eva ficou a frente da restauração e trabalhou duro, não só prá devolver o teatro nas mesmas condições que ele foi construído como cores, materiais, bem como para dar a ele a modernidade que se exigia.
A reinauguração aconteceu em agosto de 1984 com o espetáculo de teatro de bonesco, o Julgamento do Cupim ( tão a propósito pela situação que ele viveu) apresentado pelo Grupo Cem Modos, o musical Piaf com Bibi Ferreira e uma apresentação da Orquestra Sinfônica Brasileira regida pelo maestro Isaac Karabchevsky
O Jõ Soares era outro grande admirador do trabalho da D Eva e foi muito carinhoso nesta entrevista.

Já começaram os movimentos para homenagear esta grande senhora.

Fabrício Carpinejar sugeriu que o Teatro levasse o seu nome, já que foi um exército de uma mulher só na luta de revivê-lo e mantê-lo.

Numa das últimas entrevistas que deu antes de ter o acidente vascular periférico que comprometeu definitivamente sua saúde fez a seguinte declaração ao Jornal do Comércio de Pôrto Alegre:

“O mau momento que vivemos hoje na economia e na política é falta de vergonha na cara. A essa altura da minha vida eu posso falar, já vivi muita coisa.” 

Ela não tinha papas na língua no que se tratava do teatro e da arte.

Pelos caminhos do destino, morre exatamente no mesmo dia que há quatro anos morreu Nico Nicolayweski um dos artistas que apresentava Tangos e Tragédias, talvez o espetáculo que mais se apresentou no Theatro São Pedro, sempre no mês de janeiro, baixissima temporada cultural e que lotava o teatro.

Só posso dizer Obrigada, Dona Eva, por todo seu legado.

Pessoas como a senhora não morrem, porque serão sempre uma inspiração para outros por sua força e coragem.

Agradeço em meu nome todos os momentos maravilhosos que vivi no São Pedro e agradeço em nome do Estado do Rio Grande do Sul.

A senhora fez muito mais por todos nós do que a maioria dos políticos dos últimos quarenta anos que teve que aguentar para gerir a fundação Teatro São Pedro.

Que Deus a receba na sua paz!

Com certeza a senhora passou por este mundo brilhantemente.

 

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